Antes de poder explicar o título desse blog vai ser preciso muita conversa sobre as motivações por trás da criação dele. Ele existe pela necessidade de diálogo (tomara que haja algum) sobre coisas que interessam a muitos e que servem para instruir positivamente, mesmo sendo negativamente aproveitadas. Aqui é o lugar para se tratar de artes (mais ou menos) em geral. A importância desse assunto não deveria nem ser defendida, e deveríamos e ir direto ao assunto, porém, por falta de prática em usufruir coisas artísticas, nós não sabemos a verdadeira finalidade da existência disso. Acabamos entendendo errado, dizemos ser algo inútil, que deve ser aproveitado como "lazer". Só que não é. Esse blog existe para isso. Afirmar a importância do pensamento artístico na formação de um tipo de conhecimento bem peculiar, que a gente tem mas não sabe que tem, que não parece conhecimento, parece uma sensação fluida dentro da gente que é totalmente desforme, não é tátil. É lógico que estamos habituados a um certo tipo de conhecimento escrito, dito racionalmente e gradualmente, em etapas pensadas para que fosse infalível. Quando a gente se depara com algo que às vezes é fragmentado e heterodoxo, como cinema ou música contemporâneas, ficamos sem chão, ou o chão fica líquido. E nós queremos tanto um chão sólido que imaginamos Jesus Cristo andando na água. Mas a arte derruba a gente no mar, a gente engole tudo e morre às vezes, isso é que se procura fazer aqui. Muitas vezes até puxando Jesus Cristo conosco pra ver se ele aguenta, ou quantas vezes ressuscita. A criação de um novo mundo, ou como dizem no cinema, de uma diegese, é uma grande vantagem de obras de arte, de poder imaginar que aquilo que acontece ali é totalmente possível e natural, como em filmes de zumbi. E é muito bom que seja desse jeito, porque assim é possível que olhemos para algumas coisas de uma maneira diferente. Um objeto-nato não faz a gente ver as coisas de um jeito de diferente por qualidades próprias, mas sim pela maneira como ele existe e a superposição dessa maneira com maneiras a quais estamos habituados, então estranhamos, tomamos um choque, a gente procura saber por que é assim.
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Uma coisa interessante sobre a imagem filmada e que (pelo menos pra mim) prova que ela tem qualidades intrínsecas e genuínas é o fato de eu gostar de imagens do oceano em filmes. O mar filmado de maneira frontal com um pouco de areia e um pouco de céu aparecendo, como em Os montros ou Amiga americana, do coletivo Alumbramento. O mar, o farol e Isabelle Huppert em In another country, de Hong Sang-soo. Ou apenas o mar e o ruído irritante em Film socialisme, do Godard. Adoro o mar filmado mas odeio estar na praia. Pra mim é algo difícil de compreender como posso gostar de uma imagem e não me seduzir por ela, não querer estar nela. Óbvio que existe uma experiência perfeita e auto-suficiente em observar uma imagem. Não saber porquê é que faz dela um objeto-nato.
Nem interessa saber. Não quero dissecar um objeto aqui, não quero saber o que tem dentro. Isso ia ser chato e científico, ou seja, eu não ia ter sucesso. Eu quero tocar na superfície, apenas observar, saber como eu reajo, procurar saber como outras pessoas reagem, o que eu apreendo, o que eu aprendo, o que aquilo me diz do mundo e no que aquilo ajuda a melhorar o mundo. Afinal, um objeto é um objeto, como disse Godard em Une femme est une femme. Mas a partir disso podemos tentar descobrir o que nós somos, e ainda melhor, o que não somos, ou que queremos ser e o que não queremos ser.
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Mas as pessoas vão aos cinemas e assistem ao Hobbit ou então a Avatar e acham que cinema é apenas isso. Partem para casa e não fazem ligação histórica entre nada, não procuram saber os autores dos filmes, quem trabalhou para que aquilo fosse possível. A ligação das pessoas com o cinema é aistórica e isso acontece por alguma questão sociológica muito complexa da nossa sociedade. Mas parte disso pode acontecer pelo fato de aqui em Alagoas não existirem salas de cinema. A sessão de arte do Kinoplex do Shopping Maceió só passa filmes europeus, como isso fosse o suficiente pra que se pudesse chamar esses filmes de filme de arte (uma denominação fascista, fudida e filhadaputa de ruim), o Cine Sesi passa filmes que correm por fora mas não passam os melhores que correm por fora, passando até uns filmes horríveis às vezes. Numa cidade onde não existe apoio cultural nenhum (não tenho medo de dizer), eu até acho que o cinema vai bem. Mas, por favor, vejam quantos filmes escritos e dirigidos pela mesma pessoa são exibidos no Cine Sesi e/ou no Kinoplex. Não estou defendendo que apenas filmes assim que prestam, mas é uma grande representação autoral dirigir e escrever, é assim com Godard, Tarkovsky, Kurosawa, Woody Allen, Jarmusch, Tarantino, Haneke, von Trier, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, irmãos Coen, Hong Sang-soo, Apichatpong Weerasethakul, Kiarostami, com as mulheres Cholodenko, Holofcener, Lynne Ramsay, Lucrecia Martel e com os brasileiros Sganzerla, Bressane, Reichenbach, Glauber Rocha. Agora perguntem-se quantos desses tiveram filmes exibidos aqui em Maceió. Porém, existem grandes diretores que não escreviam sempre seus roteiros, como Altman, Hitchcock, Scorcese, Truffaut, Kubrick, Soderbergh, Coppola, de Palma, Carpenter. O cinema de Maceió exibe aqueles filmes feitos para vender e obtém sucesso assim. Então, quem ama de verdade o cinema, fica no amor platônico, na pirataria, vendo muitos filmes em casa na telinha, quando na verdade os devia ver na telona. Talvez até seja bom, já que uma parte dos cineastas citados filmam em película e as salas de cinema estão cada vez menos usando rolos, então, entre ver uma reprodução digital em público e ver em casa, como disse o Tarantino numa entrevista, "prefiro ver em casa".
O cinema espetáculo, dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos de Méliès, é algo necessário e útil, porém, está longe de ser a única forma de expressão cinematográfica. O cinema documental, dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos dos Lumière está longe de acabar, mas está praticamente extinto das salas de cinema de Maceió.
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Então volto para aquela imagem do oceano que amo observar mas odeio viver. O cinema é o local para quem gosta de observar sem que saiba, é uma situação de voyeurismo que deve ter alguma explicação psicanalítica bem complexa mas que de alguma forma nos dá prazer, prende a atenção da gente. A pipoca é um mecanismo publicitário pra que se possa vender o cinema, o que a gente gosta mesmo é de olhar. E eu olho o mar achando aquilo interessante talvez porque não haja conflitos ali (em superfície), tudo sacode de um lado pro outro ocupando totalmente o espaço disponível sem perturbar nem ser perturbado, é a inércia, a paz. A situação que buscamos para o mundo com tudo que fazemos, enquanto os outros pensam em abrir uma empresa e comprar o carro do ano.
Abrir esse blog é uma homenagem a Rogério Sganzerla.
Nem interessa saber. Não quero dissecar um objeto aqui, não quero saber o que tem dentro. Isso ia ser chato e científico, ou seja, eu não ia ter sucesso. Eu quero tocar na superfície, apenas observar, saber como eu reajo, procurar saber como outras pessoas reagem, o que eu apreendo, o que eu aprendo, o que aquilo me diz do mundo e no que aquilo ajuda a melhorar o mundo. Afinal, um objeto é um objeto, como disse Godard em Une femme est une femme. Mas a partir disso podemos tentar descobrir o que nós somos, e ainda melhor, o que não somos, ou que queremos ser e o que não queremos ser.
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Mas as pessoas vão aos cinemas e assistem ao Hobbit ou então a Avatar e acham que cinema é apenas isso. Partem para casa e não fazem ligação histórica entre nada, não procuram saber os autores dos filmes, quem trabalhou para que aquilo fosse possível. A ligação das pessoas com o cinema é aistórica e isso acontece por alguma questão sociológica muito complexa da nossa sociedade. Mas parte disso pode acontecer pelo fato de aqui em Alagoas não existirem salas de cinema. A sessão de arte do Kinoplex do Shopping Maceió só passa filmes europeus, como isso fosse o suficiente pra que se pudesse chamar esses filmes de filme de arte (uma denominação fascista, fudida e filhadaputa de ruim), o Cine Sesi passa filmes que correm por fora mas não passam os melhores que correm por fora, passando até uns filmes horríveis às vezes. Numa cidade onde não existe apoio cultural nenhum (não tenho medo de dizer), eu até acho que o cinema vai bem. Mas, por favor, vejam quantos filmes escritos e dirigidos pela mesma pessoa são exibidos no Cine Sesi e/ou no Kinoplex. Não estou defendendo que apenas filmes assim que prestam, mas é uma grande representação autoral dirigir e escrever, é assim com Godard, Tarkovsky, Kurosawa, Woody Allen, Jarmusch, Tarantino, Haneke, von Trier, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, irmãos Coen, Hong Sang-soo, Apichatpong Weerasethakul, Kiarostami, com as mulheres Cholodenko, Holofcener, Lynne Ramsay, Lucrecia Martel e com os brasileiros Sganzerla, Bressane, Reichenbach, Glauber Rocha. Agora perguntem-se quantos desses tiveram filmes exibidos aqui em Maceió. Porém, existem grandes diretores que não escreviam sempre seus roteiros, como Altman, Hitchcock, Scorcese, Truffaut, Kubrick, Soderbergh, Coppola, de Palma, Carpenter. O cinema de Maceió exibe aqueles filmes feitos para vender e obtém sucesso assim. Então, quem ama de verdade o cinema, fica no amor platônico, na pirataria, vendo muitos filmes em casa na telinha, quando na verdade os devia ver na telona. Talvez até seja bom, já que uma parte dos cineastas citados filmam em película e as salas de cinema estão cada vez menos usando rolos, então, entre ver uma reprodução digital em público e ver em casa, como disse o Tarantino numa entrevista, "prefiro ver em casa".
O cinema espetáculo, dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos de Méliès, é algo necessário e útil, porém, está longe de ser a única forma de expressão cinematográfica. O cinema documental, dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos dos Lumière está longe de acabar, mas está praticamente extinto das salas de cinema de Maceió.
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Então volto para aquela imagem do oceano que amo observar mas odeio viver. O cinema é o local para quem gosta de observar sem que saiba, é uma situação de voyeurismo que deve ter alguma explicação psicanalítica bem complexa mas que de alguma forma nos dá prazer, prende a atenção da gente. A pipoca é um mecanismo publicitário pra que se possa vender o cinema, o que a gente gosta mesmo é de olhar. E eu olho o mar achando aquilo interessante talvez porque não haja conflitos ali (em superfície), tudo sacode de um lado pro outro ocupando totalmente o espaço disponível sem perturbar nem ser perturbado, é a inércia, a paz. A situação que buscamos para o mundo com tudo que fazemos, enquanto os outros pensam em abrir uma empresa e comprar o carro do ano.
Abrir esse blog é uma homenagem a Rogério Sganzerla.
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